
O universo das gueixas é repleto de mistério e fascínio.A imagem dessas mulheres, maquiadas de branco e vestidas em belos quimonos, sempre fascinou o Ocidente. - E exemplos desse deslumbramento não faltam, tanto no cinema como na literatura. Mas essa visão cheia de glamour não ajuda a revelar quem realmente são e o que fazem as gueixas. Fora do Japão é comum que elas sejam vistas como prostitutas de luxo, equívoco que explica ao mesmo tempo o preconceito e o romantismo que as cercam.
Ao contrário do que muitos imaginam, um cliente que paga pelos serviços de uma gueixa muitas vezes não recebe sexo em troca.
E quando isso acontece, é uma decisão que cabe quase sempre à própria gueixa. Hoje, a maior parte desses clientes são homens mais velhos, que sabem apreciar as artes tradicionais do Japão (que incluem canto e dança), além do jogo teatral que envolve esse universo. As gueixas são como atrizes. Elas vendem aos seus clientes o sonho de uma mulher perfeita, e fazem com que eles se sintam atraentes e importantes.
Para se tornar uma gueixa, são necessários vários anos de um rigoroso aprendizado que começa na adolescência, geralmente entre 13 e 15 anos - antigamente, esse treinamento se iniciava já na infância.
Mas se essas meninas fossem consideradas bonitas ou inteligentes, poderiam ter a chance de se tornarem gueixas. Elas são fundamentais na história cultural do Japão. As gueixas mantêm vivas as artes tradicionais do país, que não existem mais no dia-a-dia.

Foto : Gueixas em chá cerimonial na cidade de Kyoto.
Entretenimento para a elite.Conhecer uma gueixa, porém, é privilégio para poucos. Em geral, seus clientes são formados por grandes empresários, políticos de peso, membros da yakuza (a máfia japonesa) e artistas famosos.
E não basta ter muito dinheiro; para entrar nesse círculo seleto, é preciso ser apresentado por outro cliente mais antigo. As gueixas oferecem entretenimento e arte para a elite japonesa.Quando presidentes e diretores de grandes corporações desejam receber bem seus convidados, seus parceiros de negócios, é comum levá-los às casas de chá (ocha-ya). Mas esse universo, que ainda hoje é cercado de mistério, pode estar em extinção. No início do século, havia cerca de 80 mil gueixas no Japão. Hoje, estima-se que sejam apenas dois mil. Ironicamente, a influência do Ocidente (que tanto fascínio tem pelas gueixas) é apontada como uma das causas do crescente desinteresse dos japoneses pelas suas antigas tradições.
A casa das gueixas se chama oki-ya. Embora hoje nem todas as gueixas vivam de fato no oki-ya, normalmente elas começam a carreira morando nesse local. A okami-san, proprietária do estabelecimento, é a responsável pelos negócios e pela formação das gueixas. Ao mesmo tempo em que é a autoridade da casa, atua como uma espécie de segunda mãe para elas. Em geral, a própria okami-san é uma ex-gueixa.
Os bairros onde as gueixas moram são conhecidos como hanamachi, e os principais bairros estão localizados nas cidades de Kyoto e Tokyo. Uma gueixa iniciante é chamada de maiko - embora também exista a denominação tamago para as aprendizes mais novas.

Foto : Aprendizes de gueixa.
Antigamente, não era raro as famílias pobres do Japão venderem suas filhas para bordéis, com o objetivo de reduzir o número de bocas para alimentar. Se essas crianças fossem consideradas bonitas ou muito inteligentes, poderiam ser treinadas para se tornarem gueixas, tendo acesso a uma formação privilegiada.
Hoje, as poucas jovens que ingressam numa oki-ya o fazem por livre e espontânea vontade, muitas vezes atraídas por uma visão romantizada da profissão ou pelo amor pelas artes tradicionais do país.
A vida de uma aprendiz é muito dura. Inicialmente, antes de se tornar maiko, ela fica encarregada dos afazeres domésticos (limpeza e organização do oki-ya), e precisa se submeter a vários anos de rigoroso aprendizado, em que aprende a dançar, cantar e tocar instrumentos (como o shamisen,tradicional instrumento de cordas japonês). Além dessas habilidades, a formação de uma gueixa também pode incluir as artes da caligrafia, da pintura e da cerimônia do chá.
Patrocinador. Os custos do treinamento e dos quimonos são extremamente altos. Por isso, a figura do danna é crucial para várias gueixas. Ele é o cliente especial que financia esses gastos, e com quem a gueixa mantém uma relação duradoura e íntima - embora muitas gueixas prefiram não ter esse tipo de relacionamento. Não é raro que o danna seja um homem casado, nem que a gueixa se torne sua amante. Mas uma verdadeira gueixa só se envolve sexualmente com um cliente quando assim desejar ou quando seu relacionamento vem de longa data (como é o caso do danna) - mas esse é um ponto de difícil compreensão tanto para os ocidentais como para os próprios japoneses.
Uma explicação para essa posição ambígua que as gueixas ocupam na sociedade japonesa (e que para alguns se aproxima da prostituição) é oferecida pela jornalista inglesa Lesley Downer, que lançou neste ano o livro Women of the pleasure quarters - the secret history of the geisha. Uma das idéias presentes no livro é a de que as gueixas oferecem a fantasia de sedução e romance para homens ricos e poderosos, numa sociedade onde há pouco espaço para tais sentimentos. Na época do auge das gueixas, as relações entre homens e mulheres no Japão se davam de modo diferente do modo como ocorriam no Ocidente.
Todas as classes sociais realizavam casamentos arranjados, com exceção das classes mais pobres. O objetivo do casamento era criar alianças entre famílias; contrariar a família e casar por amor era algo impensável.
Uma vida mais livre e independente?Com a sofisticada formação que têm e o estilo de vida que levam, as gueixas são mulheres diferenciadas em seu país.

Uma japonesa casada, mesmo quando trabalha, passa boa parte do tempo cuidando da casa e dos filhos. - Já as gueixas não se ocupam com as tarefas domésticas e estão livres da rotina de uma dona de casa; ao invés disso, elas usam seu tempo para estudar e se desenvolver. - Mas é claro que há muitas restrições, problemas e dificuldades nesse estilo de vida.
Ser uma gueixa implica trabalho duro: é preciso estudar, apresentar uma cara sempre alegre e agradável, ter a melhor aparência possível e trabalhar por várias horas seguidas. Além disso, uma gueixa que tenha um patrocinador pode ter de abrir mão de boa parte de sua liberdade, porque o danna muitas vezes é quase um marido. E não se deve esquecer que as gueixas se submetem à rígida hierarquia de sua própria comunidade. Não é uma vida fácil!.
Por outro lado, uma gueixa de sucesso pode desenvolver uma longa carreira e conquistar sua independência financeira. Nesse sentido, a vida de uma gueixa é muito diferente da vida de uma mulher japonesa convencional.
Mas eu não diria que é algo mais fácil, ou melhor; isso depende da personalidade da mulher e do que ela entende por independência e "liberdade". O estilo de vida que as gueixas levam se aproxima, em certos aspectos, do dia-a-dia de uma mulher ocidental "independente" (a dedicação à própria vida profissional seria um dos pontos em comum).
Outro ponto interessante é que as comunidades formadas pelas gueixas são uma espécie de imagem invertida da sociedade japonesa; nessas comunidades, são as mulheres, e não os homens, que detêm o poder; quando uma criança está para nascer, todos esperam por uma menina, e não um menino, para que a linhagem da gueixa-mãe possa continuar". Mas essa vida diferenciada cobra seu preço: apesar de não serem explicitamente rejeitadas pela sociedade japonesa, as gueixas não se inserem no convívio social.
Quando uma adolescente decide se tornar uma gueixa, a reação dos pais quase sempre é negativa, para dizer o menos; e o casamento, para uma gueixa, é algo impossível, a menos que se desista da profissão.
Curiosidade~
Uma gueixa ocidental?

A antropóloga norte-americana Liza Dalby é autora de uma façanha: é a única ocidental que se tem notícias a se tornar uma gueixa. Especialista em cultura japonesa, ela conhece o país desde os 16 anos, quando morou durante um ano na cidade de Saga (ilha de Kyushu), no final da década de 60. Desde então, sua vida foi marcada por várias passagens pelo Japão, onde aprendeu a falar a língua local e a tocar o shamisen (tradicional instrumento de cordas). Na década de 70, após se graduar em antropologia nos Estados Unidos, ela escolheu como tema de sua tese de doutorado a situação das gueixas no Japão contemporâneo.
A antropóloga passou vários meses entrevistando e pesquisando, e foi assim que surgiu a idéia de ela mesma se tornar uma gueixa.
Em 1978, ela recebeu o título de doutora pela Universidade de Stanford.
E, em 1983, lançou seu livro intitulado Geisha . Quando surgiu o projeto de Steven Spielberg para filmar "Memórias de uma gueixa", em 1998, ela foi convidada para a função de consultora artística - prova de seu reconhecimento como especialista no assunto.
Gueixas, que futuro terão?

Fonte :
www.nihonsite.com
Colaborador: Jornalista - Ricardo Koiti Koshimizu

Eu amo a cultura japonesa, e desde pequena adimiro e tenho o maior fascinio pelas queixas.
ResponderExcluirPara mim elas são perfeitas.
Que pena que sou brasileira, se não fosse por isso me interessaria mais.
Amei a materia.
ass:Liny